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Estudo aponta lacunas na modelagem da água em aterros de regiões tropicais.

O artigo Water balance in landfills: Comprehensive review of modeling approaches, de Carlos Armando Reyes Flores, Amaya Lobo García de Cortázar, Ana López Martínez e Alan Cavalcanti da Cunha, foi publicado no volume 415 do Journal of Environmental Management e disponibilizado em acesso aberto em 4 de agosto de 2026.

Uma revisão científica realizada por pesquisadores da Universidade Federal do Amapá (Unifap) e da Universidad de Cantabria, na Espanha, identificou uma lacuna na produção científica sobre o comportamento da água em aterros sanitários de regiões tropicais. Embora esses territórios estejam entre os mais expostos a grandes volumes de chuva e a eventos hidrometeorológicos extremos, eles ainda são pouco representados nos estudos que avaliam, por meio de modelos matemáticos, a dinâmica da água dentro dos aterros.

Publicado no Journal of Environmental Management, o trabalho analisou pesquisas dos últimos 15 anos sobre modelos utilizados para calcular o balanço hídrico em aterros sanitários. Dos 68 registros inicialmente encontrados nas bases Scopus, Web of Science e SciELO, 32 publicações foram selecionadas para análise.

O balanço hídrico permite estimar como a água entra, circula, fica armazenada e deixa o aterro. A precipitação e a umidade presente nos resíduos estão entre as principais entradas. Do outro lado, estão processos como evaporação, evapotranspiração, escoamento superficial, infiltração e geração de lixiviado (líquido produzido a partir da interação da água com os resíduos e outros materiais do aterro).

Essas informações são importantes para o planejamento dos sistemas de drenagem e para a avaliação de riscos ambientais. A quantidade de água que permanece no aterro ou é convertida em lixiviado, por exemplo, varia conforme fatores como o tipo e a espessura da cobertura, a compactação e a umidade dos resíduos, as propriedades hidráulicas do solo e a configuração dos sistemas de drenagem.

Modelos diferentes para problemas diferentes

A revisão identificou cinco modelos computacionais utilizados na literatura: EMWMF, HELP, MODUELO, UNSAT-H e VADOSE/W. O HELP foi o mais frequente, aparecendo em 19 dos 32 estudos analisados.

A predominância, no entanto, não significa que seja a melhor opção para qualquer situação. Segundo a revisão, a escolha do modelo precisa considerar o objetivo da análise, as características do aterro, a escala do estudo, a disponibilidade de dados e as condições climáticas da região.

O HELP pode ser empregado em avaliações preliminares e projetos, mas sua resolução diária e algumas simplificações podem limitar sua aplicação em situações marcadas por chuvas intensas de curta duração. Já modelos como o MODUELO permitem representar de forma mais integrada a evolução do aterro, mas exigem maior quantidade de informações para sua aplicação.

Trópicos ainda são pouco estudados

A distribuição dos estudos analisados chama atenção. Foram identificados 22 casos em regiões de clima temperado, sete em regiões áridas, seis em regiões frias e apenas quatro em áreas tropicais. A concentração da produção científica em países de alto Índice de Desenvolvimento Humano e em regiões temperadas deixa extensas áreas tropicais sub-representadas.

Para os autores, essa lacuna é particularmente relevante na Amazônia. A região combina elevada ocorrência de chuvas com áreas onde o monitoramento ambiental e a infraestrutura de gestão de resíduos podem enfrentar limitações técnicas e financeiras. O cenário ganha importância diante da possibilidade de aumento da frequência de secas, inundações e outros eventos extremos.

Nesse contexto, modelos matemáticos podem auxiliar o planejamento e a tomada de decisões, mas precisam ser adaptados às condições locais e aos dados disponíveis.

Outro resultado da revisão é que não existe um padrão único para o comportamento hídrico dos aterros. Em alguns casos estudados, a quantidade de lixiviado gerada chegou a superar a precipitação anual, em razão também da água originalmente contida nos resíduos e de processos internos do próprio aterro.

A pesquisa, portanto, não aponta um modelo universal, mas organiza as principais ferramentas disponíveis e mostra em quais condições elas podem ser mais adequadas. Para os pesquisadores, ampliar estudos em regiões tropicais e ambientalmente sensíveis é necessário para melhorar a capacidade de prever o comportamento dos aterros e apoiar decisões de planejamento, operação e encerramento dessas instalações.

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