Principal > - 05/02/2018 - 1536278 - KLEBER SOARES DA SILVA

Um grupo de professores da Universidade Federal do Amapá (Unifap) irá apresentar, durante o I Simpósio Internacional de Língua de Sinais, em Portugal, duas pesquisas em andamento no estado do Amapá sobre o tema. O evento ocorre no Instituto Politécnico de Coimbra, ligado à Universidade de Coimbra, nos dias 14 e 15 de maio.

Língua Portuguesa de Sinais Além-Mar, suas aproximações e distanciamentos.

Os docentes irão apresentar resultados de um Projeto interinstitucional entre a Escola Superior de Educação de Coimbra e a Universidade Federal do Amapá, no âmbito dos estudos comparativos entre Línguas de Sinais e, também, no domínio das variedades do português. A primeira pesquisa apresentada será o trabalho de investigação em Línguas de Sinais em território nacional, na esfera da lexicologia e antropológica.

Em curso desde 2017, essa pesquisa tem como finalidade analisar as semelhanças e diferenças, uma vez que a língua de sinais do Brasil surgiu a partir de um modelo europeu. Entretanto, elas se distanciaram no decorrer da evolução das sociedades. Foram considerados sinais básicos no que se refere a cores e animais. Esses códigos foram escolhidos por serem simples. O professor Ronaldo Manassés, um dos pesquisadores envolvidos, explica que historicamente os surdos do Amapá aprenderam a linguagem por meio de 10 pioneiros com idades mais avançadas.

“A antropologia desses sinais no Amapá foi imposta unilateralmente. Os surdos trouxeram essa comunicação de outros lugares e iniciaram a disseminação no Amapá sem nenhuma escolarização, sem ensino formal. Era difundida apenas do contato entre eles”, lembra. Esse contato informal fez com que surgissem modelos diferentes dos originalmente vigentes. Atualmente, os surdos não mais fazem uso desses sinais em específico. No entanto, os mais velhos ainda hoje continuam a usar, mesmo em contato com os mais jovens.

A variação dessa forma de comunicação será apresentada em debates pelos professores Ronaldo Manassés, Fernando Fernandes e Josy Garcia, com participação dos professores Isabel Correia e Rafaela Silva, da Escola Superior de Educação de Coimbra.

Sinais para religiões afro-brasileiras

Outra pesquisa apresentada no Simpósio será a de criação de sinais para explicar a afro religiosidade brasileira. O professor Manassés comenta que as religiões afro-brasileiras (Candomblé, Umbanda, Catimbó e Xangô, por exemplo) caracterizam-se pela sua oralidade específica, seus aspectos visuais, cânticos e batuques.  A pesquisa surgiu após o questionamento de um casal de surdos sobre a tradição de deixar oferendas para Iemanjá na virada de ano.

“Apesar do sincretismo religioso, eu não conseguia explicar de forma satisfatória o ritual, pois não havia sinais para tal. Na linguagem de sinais, quando não existe o equivalente, nós temos que usar o alfabeto manual (datilologia). Então, sentimos a necessidade dessa criação para referendar a religiosidade”, explica Manassés.

Termos como Orixás, Casa de Santo, obrigação, vestimenta, e a hierarquização da casa; como a que existe na igreja católica com padres, bispos, e diáconos, por exemplo; tiveram que ser criados a partir do debate com professores surdos. “É extremamente importante que a comunidade surda esteja inserida. Esses sinais devem ser criados em parcerias e nunca de uma única parte. Nós ajudamos a debater linguisticamente essas referências”, afirmou Manassés.

Ao todo, 15 novos sinais foram designados para ser parte constitutiva de uma linguagem visual da língua brasileira. Os professores já cadastraram esses sinais na Plataforma Brasil de Pesquisa para aval do comitê de ética e aguardam o registro que vai partir via Federal do Amapá, que detém um curso específico de graduação para tal. Se aceito, a Unifap será pioneira no Brasil. “É como se criássemos novas palavras e registrássemos na Lexis portuguesa. À medida que consigamos o registro, vamos difundi-las”, afirmou.